Miliumas

Miliumas
O livro em Movimento

quinta-feira, março 08, 2007

As cidades e suas musas - leitura cênica de Cidades Invisíveis de Ìtalo Calvino




evento MULHERES INVISÍVEIS
SESC Paulista 22 de março de 2007 .


Contação " As Cidades e suas musas " Do livro de Italo Calvino As Cidades Invisíveis da Cia das letras , com lembranças em Seis propostas para o próximo milênio também dele.


A contação foi realizada com o artista Edú Garudah no Sesc Paulista no dia 22 de março , para o público adulto.

Pode também ser realizado o evento com outros formatos :
Com uma oficina de pesquisa cênica e de imagens na internet , uma oficina multipla e explorando a possibilidade de mergulho em auto conhecimento através da viagem pela palavra de Calvino , numa poesia rica e leve, rechaeda de símbolos que nos remete à contemporaneidade e a mulher .A mulher na cidade, a mulher e sua cidade, a relações na cidade.São muitos os caminhos possíveis pela poesia de Calvino.

O caminho que aqui convido é em busca das musas leves e mensageiras de Paz deste novo milênio.


Necessidades tecnicas:
sala ampla
compuatdores ligados à net

LALAGE a cidade leve.

Poetry - “O termo Poetry significa no presente caso qualquer espécie de comunicação poéticas –literárias, musicais, figurativas-, sendo a escolha do tema completamente livre”. Ítalo Calvino em Seis Propostas para o próximo milênio também da Companhia das letras.

As cidades e suas musas –um evento de histórias , uma comunicação poética livre para compreender melhor a Cidade e sas mulheres.

Narração de Cidades Invisíveis Ìtalo Calvino
Música e narração Edú Garudah

“Nada garante que Kublai Kan acredite em tudo o que diz Marco Pólo ao descrever-lhe as cidades que visitou nas suas missões, mas a verdade é que o imperador dos tártaros continua a ouvir o jovem veneziano com maior atenção e curiosidade que a qualquer outro enviado seu ou explorador...”.

Aos pés do Grande Khan estendia-se um pavimento de maiólica, Marco Pólo, informante mudo, espalhava o mostruário de mercadorias trazidos de suas viagens aos confins do império:um elmo, uma concha, um coco , um leque. Dispondo os objetos numa certa ordem onde os azulejos brancos e pretos e, a partir daí, deslocando-os com movimentos estudados, o embaixador tentava representar aos olhos do monarca as vicissitudes de sua viagem, o estado do império, as prerrogativas de remotas capitais da província.

1-As cidades e a memória -Diomira
Partindo dali e caminhando por três dias em direção ao levante, encontra-se Diomira, cidade de sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas lajeadas de estanho , um teatro de cristal, um galo de ouro que canta todas as manhãs no alto de uma torre. Todas essas belezas o viajante já conhece por tê-las visto em outras cidades. Mas a peculiaridade desta é quem chega numa noite de setembro , quando os dias e tornam mais curtos e as lâmpadas multicoloridas se acendem juntas nas portas das tabernas , e de um terraço, ouve-se a voz de uma mulher que grita:uh!È levado a invejar aqueles que imaginavam ter vivido uma noite igual a esta e que na ocasião se sentiram felizes.

2-As cidades e o desejo- Anastácia -
A três dias de distancia, caminhando em direção ao sul, encontra-se Anastácia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por pipas. Eu deveria enumerar as mercadorias que aqui se compram a preços vantajosos, ágata, ônix, crisopraso, e outras variedades de calcedônia, deveria louvar a carne do faisão dourado que aqui se cozinha na lenha da cerejeira e salpicada com muito orégano;falar das mulheres que vi tomar banho no tanque de um jardim e que às vezes convidam o viajante a despir-se com elas e persegui-las dentro da água .Mas com essas notícias não falaria da verdadeira essência da cidade ,:porque , enquanto a descrição de Anastácia desperta desejos que deverão ser reprimidos ,quem se encontra uma manhã em Anastácia desperta uma série de desejos que se despertam simultaneamente .A cidade aparece num todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte , e , uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares , não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer , Anastácia , cidade enganosa, , tem um poder , que às vezes se diz maligno e outro benigno:se você trabalha oito horas por dia como garimpado de ágatas, ônix, crisóprasos, a fadiga , que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma , e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo.

-Você, que explora em profundidade, é capaz de interpretar os símbolos,saberia me dizer em direção a qual desses futuros nos levam os ventos propícios?
-Por esses portos eu não saberia traçar a rota nos mapas nem fixar a data da atracação.Às vezes basta-me uma partícula que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes na neblina,o diálogo de dois passantes que se encontram no vaivém, para pensar que partindo dali construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos, misturados com o resto, de instantes separados por intervalos de sinais que alguém envia e não sabe quem capta. Se disser que a cidade para qual tende a minha viagem é descontínua no espaço e no tempo, ora mais rala, ora mais densa, você não deve crer que pode parar de procurá-la.Pode ser que enquanto falamos , ela esteja aflorando dispersa dentro dos confins do seu império, é possível encontrá-la mas da maneira que eu disse.

3-As cidades e o desejo-
Há duas maneiras de se alcançar Despina:de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar .
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus , as antenas de radar , os sobressaltos das birutas brancas e vermelhas , a fumaça das chaminés , imagina um navio;sabe que é uma cidade mas imagina , como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar ,com o vento que enche a sua vela ainda não completamente solta , ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro , e imagina todos os portos , as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam no cais, as tabernas que as tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça umas das outras , as janelas térreas iluminadas , cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando;sabe que é uma cidade, mas imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada , vinho de tâmaras , folhas de tabaco , e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sobra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe;é assim que o cameleiro e o marinheiro vêem Despina, cidade de confim entre dois desertos.

4-A cidade e a memória –Isidora
O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de encontrar uma cidade .Finalmente chega a Isidora , cidade onde os palácios têm escadas em coral, incrustadas de caracol marinho,onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está em dúvida entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galos se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas estas coisas quando desejava uma cidade. Isidora é pois a cidade de seus sonhos :com uma diferença .A cidade sonhada o possuía jovem, em Isidora chega-se em idade avançada .Na praça há o murinho dos velhos , que vêem a juventude passar , ele está sentado ao lado deles .Os desejos agora são recordações.
5-As cidades e o desejo- Zobeide – Quero vê-la lambuzada de Dendê.
Naquela direção, após seis dias e sete noites, alcança-se Zobeide, cidade branca, bem exposta à luz, com ruas que se giram em torno de si mesma como um novelo. Conta-se isto da sua fundação:
Homens de nações diferentes tiveram o mesmo sonho , viram uma bela mulher correr de noite por uma cidade desconhecida. De costas com longos cabelos estava nua. Sonharam que a perseguiam. Corriam de um lado para o outro mas ela os despistava .Após o sonho partiram em busca daquela cidade , não a encontraram mas encontraram-se uns aos outros.Decidiram então construir uma cidade como a do sonho.Na disposição das ruas cada um refez o percurso da sua perseguição; no ponto em que tinha perdido o rasto da fugitiva construiu paredes de modo que ela já não lhe pudesse fugir.a cidade era Zobeide,onde se instalaram na esperança de que uma noite a cena se repetisse .Os homens esperaram na cidade que essa noite se repetisse, mas nenhum deles, nem em sonhos, reviu a mulher.As ruas da cidade eram aquelas que levavam ao trabalho todas as manhãs, sem qualquer relação com a perseguição do sonho. Que, por sua vez, tinha sido esquecido havia muito tempo.
Chegaram novos homens de novos países, que haviam tido um sonho como o deles, e na cidade de Zobeide reconheciam algo nas ruas do sonho , e mudavam de lugar pórticos e escadas para que o percurso ficasse mais parecido com o sonho e para que no ponto que ela desaparecesse não lhe restasse mais escapatória .
Os recém chegados não compreendiam o que atraía essas pessoas a Zobeide , uma cidade feia, uma armadilha.
No silêncio:

Kublai era um atento jogador de xadrez;seguindo os gestos de Marco , observava que certas peças implicavam ou excluíam a proximidade de outras peças e deslocavam-se de acordo com certas linhas .Trans curando a variedade das formas , ele definia a disposição de um objeto em relação ao outro sobre o pavimento de maiólica. Pensou: “Se cada cidade é como uma partida de xadrez, o dia em que eu conhecer as suas regras finalmente possuirei o meu império, apesar de que jamais conseguirei conhecer todas as cidades que este contém"

6-As cidades e as trocas –Cloé

Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se vêem imaginam mil coisas que o respeito umas das outras , os encontros que poderiam ocorrer entre elas , às conversas, as surpresas , as carícias , as mordidas .Mas ninguém se cumprimenta , os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam , procuram outros olhares , ao se fixam.
Passa uma moça balançando uma sombrinha apoiada no ombro, e um pouco das ancas também .Passa uma mulher vestida de preto qu e demonstra toda sua idade , com os olhos inquietos debaixo do véu e o s lábios tremulantes .Passa um gigante tatuada, um homem jovem com cabelos brancos, um anã, duas gêmeas vestidas de coral .Corre alguma coisa entre eles , uma troca de olhares como se fosse linha que ligam uma figura á outra e desenham flechas , estrelas, triângulos , até esgotar num instante todas as combinações possíveis e outras personagens entram em cena , um cego com um guepardo na coleira, uma cortesã com um leque de penas de avestruz , um efebo, uma mulher canhão .assim entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva, sob o pórtico, ou aglomeram-se sob uma tenda de bazar , ou param para ouvir a banda da praça . Consumam-se encontros , seduções, abraços , orgias , sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo , quase sem levantar os olhos.
Existe uma contínua vibração luxuriosa em Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efêmeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história de perseguições, de ficções. De desentendimentos, de choques de opressões, e o carrossel das fantasias teria fim.

7-As cidades e os olhos- Valdrada

Os antigos construíram Valdrada à beira de um lago com casas repletas de varandas sobrepostas e com ruas suspensas sobre a água desembocando em parapeitos balaustrados. Deste modo o viajante ao chegar, depara-se com duas cidades, uma perpendicular sobre o lago e a outra refletida de cabeça para baixo. Nada existe e nada acontece na primeira Valdrada sem que se repita na segunda , porque a cidade foi construída de tal modo que cada um dos seus sete pontos fosse refletido por seu espelho, e a Valdrada na água contém não somente todas as acalanaduras e relevos e fachadas que se elevam sobre o lago mas também o interior das salas com os tetos e os pavimentos e perceptiva dos corredores, os espelhos dos armários.
Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus atos são simultaneamente aquele ato e a sua imagem especular, que possua a especial dignidade de imagens e essa consciência impede-os de abandonar-se ao acaso e ao esquecimento mesmo que por um único instante. Quando os amantes com os corpos nus rolam pele contra pele à procura da posição mais prazerosa ou quando os assassinos enfiam a faca nas veias escuras do pescoço e quanto mais a lâmina desliza entre os tendões mais o sangue escorre, o que importa não é tanto o acasalamento ou o degolamento, mas o degolamento e o acasalamento de suas imagens frias e límpidas no espelho.
Às vezes o espelho aumenta o valor das coisas, às vezes anula. Nem tudo o que parece valer acima do espelho resiste a si próprio refletido no espelho. As duas cidades gêmeas não são iguais , porque nada do que acontece em Valdrada é simétrico:para cada face ou gesto, há uma face ou gesto correspondente e invertido ponto por ponto no espelho. As duas Valdradas vivem uma para outra, olhando –se ns olhos continuamente,mas sem se amar.

Risadinhas das crianças

O Grande Klan sonhou com uma cidade –descreveu-
-As suas cidades não existem. Talvez nunca tenham existido. Certamente nunca existirão. Por que me enganar com essas fábulas consolatórias?Sei perfeitamente que meu império apodrece como um cadáver no pântano que contagia tanto os corpos que o bicam quanto os bambus que crescem adubados por seu corpo em decomposição. Por que não me fala disto . Por que mentir para o imperador dos tártaros estrangeiro?
Pólo reiterava o mau humor do soberano

... -Sim o império está doente e , o que é pior, procura habituar-se às suas doenças. O propósito das minhas explorações é o seguinte:perscrutando os vestígios da felicidade que ainda se atrevem, posso medir o grau de penúria. Para descobrir quanta escuridão existe em torno , é preciso concentrar o olhar nas luzes fracas e distantes.

Mas as cidades visitadas eram sempre diferentes das imaginadas pelo imperador.

.”..Outras vezes o Kan era acometido de sobressaltos de euforia . Ficava de pé sobre as almofadas media com longas passadas os tapetes estendidos sobre os canteiros, debruçava-se nos balaústres dos terraço para abranger com os olhos deslumbrados a extensão dos jardins do palácio real iluminados por lanternas penduradas nos cedros.”


8-As cidades delgadas-
Se quiserem acreditar, ótimo. Agora contarei como é feita Otávia, cidade teia de aranha .Existe um precipício no meio de duas montanhas,escarpadas:a cidade fica no vazio, ligada aos dois cumes por fios e correntes e passarelas. Caminha-se em trilos de madeira, atentando para não enfiar o pé nos intervalos, ou agarra-se aos fios de cânhamo , abaixo não há nada por centenas e centenas de metros:passam algumas nuvens;mais abaixo, entrevê-se o fundo do desfiladeiro.
Essa é a base da cidade:uma rede que serve de passagem e sustentáculo. Todo o resto, em vez de elevar-se , está pendurado para baixo :escadas de corda, redes , casas em forma de saco,varais, terraços com as formas de gavetas,odres de água,bicos de gás,assadeiras,cestos pendurados com barbantes, monta-cargas, chuveiros, trapézios e anéis para jogos, teleféricos, lampadários,vasos com plantas de folhagens pendentes. Suspensa sobre o abismo, a vida dos habitantes de Otávia é menos incerta que a de outras cidades. Sabem que a rede não resistirá mais que isso.

Marco Pólo descreve uma ponte, pedra por pedra. pedra arnaldo
-Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?-pergunta Kublai Kan.
-A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra- responde Marco-,mas pela curva do arco que elas formam.
Kublai Kan pemanece em silêncio, refletindo.depois acrescenta:
-Por que falar das pedras?Só o arco me interessa.
Pólo responde:
-Sem as pedras o arco não existe.


Não sei quando você encontrou tempo de visitar todas essas cidades que me descreve , a impressão que tenho é que nunca saiu deste jardim.

9-As cidades e o nome- Clarisse

Clarisse, cidade gloriosa tem uma história atribulada .Diversas vezes caiu e diversas vezes floresceu, mantendo sempre a primeira Clarisse como inigualável modelo de todos os es, a qual, comparada com o atual estado da cidade, não deixa de suscitar suspiros a cada giro de estrelas.
Nos séculos de degradação, a cidade esvaziada por causa das pestilências, reduzida em estatura por causa do desabamento de traves e cornijas e do desmoronamento de terras , enferrujada e bloqueada por negligência ou por férias dos funcionários da manutenção , repovoa-se lentamente com hordas de sobreviventes emersos de sótãos e covas como fervidos ratos movidos pelo afã de resolver e roer e que ao mesmo tempo se reúnam e se ajeitavam como passarinhos num ninho. Agarra-se a tudo que podia ser retirado de onde estava e colocado em outro lugar com uma outra utilidade:as cortinas de brocado terminavam por servir de lençóis, nas urnas cinelárias de mármore , plantavam manjericão;as grades de ferro batido arrancadas das janelas dos gineceus eram usadas assar carne de gato em fogo de lenha marchetada. Montada com os pedaços avulsos de Clarisse imprestável, tomava forma de uma Clarisse da sobrevivência, repleta de covis e casebres, córregos infectadas, gaiolas de coelhos. Todavia , não se perdera quase nada do antigo esplendor de Clarisse, estava tudo ali, apenas disposto de maneira diversa mas não menos adequada às exigências dos seus habitantes.
Os tempos de indigência eram sucedidos por épocas mais alegres:uma suntuosa Clarisse-borboleta saía da mísera Clarisse- crisálida;a nova abundância fazia acidade extravasar de novos materiais edifícios objetos;afluía gente nova de fora;nada e ninguém tinham a ver com a Clarisse ou as Clarisses anteriores ;e,quanto mais se estabelecia triunfantemente no lugar e com o nome da primeira Clarisse, mais a nova cidade percebia afastar-se desta, destruí-la com a velocidade dos ratos e do mofo:apesar do orgulho do novo fausto, no fundo do coração sentia-se estranha, incongruente, usurpadora.
Eis então os fragmentos do primeiro esplendor, que haviam se salvado, adaptando-se as necessidades mais obscuras sendo novamente deslocado, ei-los protegidos sob recipientes de vidro, trancados em vitrinas, apoiados sobre travesseiros de veludo e não mais porque ainda podiam servir para alguma coisa , mas porque por meio deles seria possível reconstruir uma cidade sobre a qual ninguém sabia mas nada .
Seguiram-se outras deteriorações e outras pujanças em Clarisse. As populações e os costumes mudaram diversas vezes ; resta o nome , o lugar em que está situado , o objeto mais resistente. Cada uma das novas Clarisses, compacta como um ser vivo com seus odores e sua respiração, ostenta como um colar aquilo que resta das novas clarisses fragmentárias e mortas. Não se sabe quando os capitéis coríntios estiveram em cima das suas colunas recorda-se somente que por muitos anos um deles serviu de apoio num galinheiro para a cesta de onde as galinhas punham ovos e que dali passou para o Museu dos Capitéis ao lado de outros exemplares da coleção. A ordem de sucessão das épocas havia se perdido; que existiu, ima primeira Clarisse é uma crença muito difundida, mas não existem provas para demonstrá-lo ;os capitéis podem ter estado primeiro nos galinheiros e depois nos templos , as urnas de mármore podem ter sido semeadas primeiro de manjericão e depois de ossos de defunto. Sabe-se com certeza apenas o seguinte:um certo número de objetos desloca-se num certo espaço , ora submerso por uma grande quantidade de novos objetos, ora consumido sem ser reposto;a regra é sempre misturá-los e tentar recolocar no lugar. Talvez Clarisse sempre tenha sido apenas umas misturas de bugigangas espedaçadas, pouco sortidas, obsoletas.

10-As cidades contínuas- Leônia-
A cidade de Lêonia refaz a si própria todos os dias:a população acorda todas as manhãs em lençóis frescos, lava-se com sabonete recém tirados das embalagens, veste roupões novíssimos, entrai das mais avançadas geladeiras latas ainda intactas, escutando as últimas lengalengas do último modelo de rádio.
Nas calçadas , envoltos em límpidos sacos plásticos, os restos de Leônia de ontem aguardam a carroça do lixeiro. Não só tubos retorcidos de pastas de dente, lâmpadas queimadas, jornais , recipientes, materiais de embalagem, mas também , aquecedores, enciclopédias, pianos , aparelhos de jantar de porcelana :mais do que pelas coisas que todos os dias são fabricadas, vendidas, compradas, a opulência de Leônia se mede pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas. Tanto que se pergunta se a verdadeira paixão de Leônia é de fato, como dizem , o prazer das coisas novas e diferentes , e não o ato de expelir, de afastar de si, expurgar uma impureza recorrente certo é que os lixeiros são acolhidos como anjos e a sua tarefa de remover os restos da existência do dia anterior é circundada de um respeito silencioso, como um rito que inspira a devoção , ou talvez apenas porque, uma vez que as coisas são jogadas fora, ninguém mais quer pensar nelas.
Ninguém se pergunta para onde que os lixeiros levam os seus carregamentos:para fora da cidade, sem dúvida;mas todos os anos a cidade se expande e os depósitos de lixo devem recuar para mais longa;a impotência dos tributos aumenta e os impostos elevam-se, estratificam-se, estendem-se por um perímetro mais amplo. Acrescente-se que, quando mais Leônia, se supera na arte de fabricar lixo, resistindo ao tempo , às intempéries , à fermentação e combustão.È uma fortaleza de rebotalhos indestrutíveis que circunda Leônia pouco a pouco invadiria o mundo se o imenso depósito de lixo não fosse comprimido, do lado de lá de sua cumeeira, por depósito de lixo de ouras cidades que também repelem para longe montanhas de detritos. Talvez o mundo inteiro, além dos confins de Leônia , seja recoberto por crateras de imundice, cada uma com uma metrópole no centro em ininterrupta erupção. os confins entre cidades desconhecidas e inimigas são bastões infectados m que os detritos de uma e de oura escoram-se reciprocamente, superam-se, misturam-se.
Quanto mais cresce em altura, maior a ameaça de desmoronamento:basta que um vasilhame , um pneu velho, um garrafão de vinho se precipitem do lado de Leônia e uma avalanche de sapatos desemparelhados, calendário de anos decorridos e flores secas afunda a cidade no passado que em vão tentava repelir, misturado com o das cidades limítrofes, finalmente eliminada- um cataclismo irá aplainar a sórdida cadeia montanhosa, cancelar qualquer vestígio da metrópole sempre vestida de novo. Já nas cidades vizinhas, estão prontos os rolos compressores para aplainar o solo, estender-se no novo território, alargar-se, afastar os novos depósitos de lixo.


11-As cidades e o céu-

Quando se chega a Tecla, pouco se vê da cidade, escondida atrás dos tapumes, das defesas de pano, dos andaimes, das armaduras metálicas, das pontes de madeira suspensas por cabos ou apoiadas em cavaletes, das escadas de corda , dos fardos de juta.À pergunta:Por que a construção de Tecla prolonga-se por tanto tempo?, os habitantes , sem deixar de içar baldes, de baixar cabos de ferros , de mover longos pincéis para cima e para baixo respondem:
-Para que não comece a destruição, questionados se temem que após a retirada dos andaimes a cidade comece a desmoronar e a despedaçar-se , acrescentam rapidamente , sussurrando:-Não, só a cidade.
Se, insatisfeito, com as respostas , alguém espia através dos cercados , vê guindastes que erguem outros guindastes , armações que revestem outras armações, traves que escoram outras traves.
-Qual o sentido de tanta construção?-pergunta o objetivo de uma cidade em construção senão uma cidade?Qual o plano que vocês seguem, o projeto?]-Mostraremos assim que terminar a jornada de trabalho;agora não podemos ser interrompidos;-respondem.
O trabalho cessa ao pôr –do- sol. A noite cai sobre os canteiros de obras.È uma noite estrelada .
-Eis o projeto- diz.


-Eu falo, falo –diz Marco mas quem me ouve retem apenas as palavras que deseja
Uma coisa é a descrição do mundo á qual você empresta sua especial atenção , outra é a que correrá os campanários de descarregadores e gondoleiros às margens do canal diante da minha casa no dia do meu retorno, outra ainda a que poderia ditar em idade avançada se fosse aprisionado por piratas genoveses e colocada aos ferros na mesma cela de um escriba de romances de aventura. .Quem comanda a narração não é a voz : é o ouvido.

-Viajando percebe-se que as diferenças desaparecem;uma cidade vai se tornando parecida com todas as cidades.

O atlas do Grande Klan também contém os mapas de terras prometidas visitadas na imaginação ma ainda não descobertas ou fundadas:A Nova Atlântica,Utopia,a Cidade do Sol,Oceana,Tamoé,Harmonia,New –Lanark,Içaria.
Kublai perguntou a Marco:


“È o seu próprio peso que está esmagando o império”e em seus sonhos agora aparecem cidades leves como pipas, cidades esburacadas como rendas, cidades transparentes como mosquiteiros,cidades fibras de folhas, cidades-linha-da-mão, cidades- filigrana que vêem através de sua espessura opaca e fictícia.

-Como a que sonhei esta noite- disse Marco- em meio a uma terra plana e amarela, salpicada de meteoritos e massas erráticas , vi erguerem-se a distância as extremidades de uma cidade de pináculos de tênue, feitas de modo que a lua em sua viagem possa pousar ora num pináculo ora noutro ou oscilar pendurada nos cabos de guindastes.

E Pólo:

-A cidade que você sonhou é Lalage. Os habitantes dispuseram esses convites a uma parada no céu noturno para que a lua permita a cada coisa da cidade crescer e recrescer indefinidamente.
-Há algo que você não sabe-acrescentou o Klan.- Agradecida , a lua concedeu à cidade de Lalage um privilégio ainda mais raro:crescer com leveza.

O Grande Klan já havia folheado em seu Atlas os mapas das ameaçadoras ciddaes que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch,Babilôbia.Yahoo,Butua,Brave New Orld.
Disse:
È tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.
E Pólo no fundo silencioso :
-O inferno dos vivos, não é algo que será; se existe, é aquele que está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até o ponto de deixar de percebê-lo.A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem continua: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.


Tecka- “Se quisesse escolher um símbolo votivo para saudar o novo milênio , escolheria este:o salto ágil e imprevisto do poeta –filósofo que sobreleva o peso do mundo , demonstrando que sua gravidade detém o segredo da leveza , enquanto que aquela que julgam ser a vitalidade dos tempos, estrepitante e agressiva , espezinhadora e estrondosa, pertence ao reino da morte, como um cemitério de automóveis enferrujado.”

com muitas plumas leves e leves
Tecka e grupo vai despedindo com penas muito leves que saem do livro e são distribuídos pelos ouvintes.

saindo..
O Salto ágil e imprevisto do poeta filósofo que sobreleva o peso do mundo , demonstrando que na sua gravidade detém o segredo da leveza ...

Cidades Invisíveis de Italo Calvino , tradução Diogo Minardi, -São Paulo Companhia das letras 1990

Seis Propostas para o próximo milênio, tradução Ivo Barroso , -São Paulo Companhia das letras
1990


Para adquirir os livros maravilhosos:

www.companhiadasletras.com.br

Boa Viagem
Viagem na leitura , nos símbolos na riqueza de Calvino.

quinta-feira, março 01, 2007

Cenas de livros







Miliumas ou o Livro em Movimento

"Embora nenhum de nós vá viver para sempre" , as histórias conseguem. Enquanto restar uma criatura que saiba conta-las e enquanto, elas puderem ser repetidas, os poderes do amor, da misericórdia, da generosidade e da perseverança forem continuamente invocados a estar no mundo, eu lhe garanto que... será suficiente."

( Clarissa P Estés)

Miliumas é resultado de trabalho. São quase vinte anos de um trabalho cênico voltado ao livro, à arte contemporânea , à educação e à cultura.

A vida de uma contadora de histórias é recheada de surpresas! Afinal, levo imagens para tantas e tantas pessoas. Quantos olhares atentos, suspiros conjuntos, sorrisos e brilhos nos olhos inesquecíveis que passam através de mim . É com muito prazer que sigo essa missão de repassar a história. Para isso, observo a vida pontuando símbolos universais e tento recriá-lós nesse mundo faz-de-conta. Compartilhar uma imagem é oferecer a mão ao outro a uma viagem , num convite aberto para a reflexão.

Reflexão esta que se dá nos micro universos criados pelos escritores , nas terceiras margens dos rios, no ninho das aranhas , nos mais altos picos das árvores.

Que espaços ocupa um contador de histórias do sec. XXI? Um asilo, um orfanato, uma doceria, espaços culturais, escolas, bibliotecas, salas de internet, uma caverna tecnológica, hospitais, febem, ruas, bares, feiras de livros, praças, teatros, cozinhas, a TV , o rádio, o cinema, o metrô .

Para que se conta histórias? Para quem?

Para ocuparmos o nosso tempo em imaginar, em penetrar nos labirintos secretos de símbolos e ações, ampliando nossa percepção, treinando nosso ouvido para escutar os gritos da Terra .

Para educadores, crianças, adultos, adolescentes, bibliotecários, atores, músicos, poetas, pessoas de terceira idade e por aí vai. Histórias para acender a chama da curiosidade, para incentivar à leitura, para apontar realidades, para pensar, para dar exemplos .
Como contar? São inúmeras as técnicas possíveis, vou falar das que eu mais gosto. Eu gosto de contar as histórias com os livros. Acho importante mostrar a capa e as ilustrações, ainda mais se for num telão com as ilustrações ampliadas!

Gosto de contar em roda, em espaços pequenos, ao ar livre.

Gosto de contar em grupo na Companhia das mil histórias Tambatajá , que faço parte, com outros contadores , em duplas , com Edú Garudah e outros ou sozinha.

Gosto de brincar com música ao vivo, trilha sonoras, danças e imagens. E por que não brincar com interferências de voz digitalizadas, em salas de internet!?

Faço um pouco de tudo, acho importante ousar, inovar. Cada livro pede um narrador diferente e procuro conhecê-lo. Em seguida, componho o cenário adequado, a luz, encontro a música. Ensaio. brinco com o tempo necessário para o outro imaginar o que é contado. Acelero o passo. Diminuo. Equilibro. Silencio. Decoro.Roteirizo.Conto de novo. Me aposso.Faço associações peço ajuda de outros artistas. No final escolho a música , os objetos e conto. Em silêncio.Muitas e muitas vezes antes de oferecer ao público.

Leio em cena , em conjunto desvendando um ato sem mistérios.
O que contar? Esse é o ponto principal, e claro , só podem ser boas histórias.Tão óbvio e tão difícil. Hoje em dia, pesquiso contos ecológicos, histórias reais pela paz, lendas do Brasil, indígenas, latino americanos, pré-columbianas, européias e africanas, navego pelos encantados, portugueses, italianos , japonesas.A pesquisa pode partir de um tema, de uma região , de uma música de um quadro ou da vida de pessoas, sejam pintores ou poetas, Orixás ou outros Deuses ou de uma palavra ... enfim...Miliumas.

Autores : Andersem, Grimm, Oscar Wilde, Italo Calvino, Carlo Collodi, Umberto Eco, Ana Maria Machado, Claudio Thebas, Eva Furnari, Adão Iturrusgarai, Roger Mello, Odilon Moraes, Heloísa Prieto, Florencia Ferrari, Tatiana Belinki, Hilo Krugli, Regina Machado, John Lenon e Yoko Ono, Rainer Maria Hilke, Charles Baudelaire, Luís Fernando Veríssimo, Cecília Meireles, Camara Cascudo, Ricardo Azevedo, Daniel Munduruku, Mariana Caltabiano, James Thurber, Hilda Hilst , Guimarães Rosa , Monteiro Lobato , Mamarama , Thiago de Melo e ainda aberta a tantos outros autores maravilhosos. Bibliografia de apoio: A arte de ler e narrar histórias Malba Tahan -ed.Conquista A arte secreta do ator Eugenio Barba -EdUnicampi Arte e Ciência Mito e Razão Mario Schenberg Edusp Acordais Regina Machado Companhia das letrinhas A canoa de papel Eugenio Barba ed Hicitec Além da ilhas flutuantes Eugenio Barba ed.Hicitec O poder do mito Joseph Campbell Rd Palas atenas Seis Propostas para o próximo milenio Italo Calvino Cia das letras Uma história da leitura - Alberto Manguel Companhia das letras Seis passeios pelo bosque da ficção Umberto Eco ed Atica ,O livro do Palhaço de Claudio Thebas Cia das Letrinhas .
Bem-vindos! Venham ouvir MILIUMAS! Pinceladas das muitas e muitas cenas de poesia e de livros em movimento!

Projetos 2007
As cidades e suas musas -leitura cênica de Cidades Invisíveis com Edú Garudah Sesc Paulista 2007
Rosas com a Trupe Flavia Cunha , Negro Nei, Quinho, Paulo Farah André e o Menino Lucas e eu Sesc Santana janeiro 2007
Lenga la lenga Mitos indígenas latino americanos nas Estações de metrô pelo Instituto Brasil Leitor .
Mostra de vídeos no Youtube e Sapo
Rosas e Cidades
Sociais (aguardando patrocínio)
Tecendo contos
Miliumas na Tv em abrigos -atividade semanal
Sala de leitura Meninos do Chico em orfanato em Extrema mG
Projetos 2006
http://www.podcast1.com.br/blog.php?codigo_canal=538

Fita verde no cabelo A velha nova estória do Guimarães Rosa Nova Fronteira Sonho de Lucy John Lennon Salamandra
Mata contos do folclore do Pará Heloísa Prieto Cia das Letrinhas
Eco do eco Contos de Umberto Eco pela paz Àtica
Aniversário das meninas princesas e quem mais chegar...coração de contadora de histórias tem sempre espaço pra mais uma , alguma encomenda inesperada que leva a pesquisa prá lá e prá cá.
Apareçam!


Patrícia Kalil said... Que livro-em-movimento mais cheio de alegria!
Quero passear na sua voz! Instrumento! Meio e começo! Sem fim. Sherazade do mundo moderno. Eu, pessoalmente, já tive a sorte de ouvir Tecka Mattoso contar a lenda do boto cor-de-rosa! Não pisquei o olho. Miliumas é a vida do pop clown. Não encerra em "arabian nights", ou em "brazilian days". Vai além. Fiandeira Tecka! Teça sempre. Conte e reconte. Por meio do seu narrar, percebo, medito e descubro outros caminhos...





CENAS DE LIVROS CONTOS DO MUNDO
[Photo]



Cenas de Livros – Contos do Mundo Todo
Nesta roda de leitura com acompanhamento musical e muita interatividade, são apresentados trechos de livros e contos portugueses, irlandeses, dinamarqueses, alemães, africanos, russos, italianos e ciganos de autores como Oscar Wilde, Hans Christian Andersen, Irmãos Grimm, Monteiro Lobato, Ítalo Calvino e outros. Após esta rodada, as crianças elegem seus trechos preferidos para serem contados até o final e têm acesso aos livros de onde vieram as histórias. Com Tecka Mattoso – Grupo Miliumas. 1 Grátis 40 vagas. Inscrições antecipadas no dia da atividade.
Dia 07/04 Sábado, às 15h.


SESC Avenida Paulista Cenas de Livros Contos do Mundo Todo

Roda de leitura com música em que são contados trechos de histórias e as crianças escolhem suas preferidas para ouvir até o fim. São contos brasileiros, dinamarqueses, alemães, africanos, russos, italianos e ciganos.

Com Tecka Mattoso.

Inicia a Roda com uma música

Começo a ler trechos de cada um desses ...começa nossa viagem.

Brasileiros: A Costureira das fadas de Monteiro Lobato do livro Reinações de Narizinho , Por que o mar tanto chora de Silvio Romero folclore do livro volta ao mundo em 52 histórias
Dinamarqueses:A princesa e a ervilha ou Polegarzinha de Andersen
Alemães: Grimn A luz azul , Branca de Neve , Rapunzel , Os dois irmãos
Africanos:Iemanjá , Buti de djibuti , Uma é assim, a outra assado , O baú das histórias
Russos : Vassilhissa , Baba Yaga , Ivan e o Pássaro de fogo
Italianos- O anel mágico Ìtalo Calvino , O amor das três romãs Ìtalo Calvino do livro Fábulas Italianas
Ciganos: A cigana que sabia de tudo
Irlandeses_- Oscar Wilde O gigante egoísta

Cenas de livros – Contos do Mundo

No dia 7 de abril de 2007 às 15 hs haverá uma Contação de histórias de livros com o tema Contos do Mundo e a contação será associada a uma oficina cênica onde as crianças escolherão a história que será contada e encenada , encerrando assim a oficina viagem pelos contos do mundo.

O evento estará inaugurando uma Sala de Leitura na unidade com este festival de livros , lembrando o aniversário do livro infantil mundial dia 2 (aniversário Hans Cristian Andersem) e do livro infantil nacional dia 18 (aniversário de Monteiro Lobato) , e dia 23 de abril dia mundial do livro , todos comemorados em abril.

A contação se dará no jardim da cobertura da unidade do SESC Paulista.

40 vagas para crianças de 5 a 11 anos.
ingressos com uma hora de antecedência

Histórias maravilhosas de Andersen
Contos de Grimn
Histórias para aprender a sonhar Oscar wilde
Volta ao mundo em 52 histórias
Viagem pelo Brasil em 52 histórias
Palavra Cigana Cosac e Naify
7 Contos russos
Galeio
Contos e Lendas da Àfrica
Encantamento
Meu primeiro livro de contos de fadas
Ponto a ponto Ana Maria Machado
Fábulas italianas Ítalo Calvino
Monteiro Lobato Reinações de Narizinho



Texto integral:

V - A COSTUREIRA DAS FADAS
(texto de Monteiro Lobato)

Depois do jantar, o Príncipe levou Narizinho à casa da melhor costureira do reino. Era uma aranha de Paris, que sabia fazer vestidos lindos, lindos até não poder mais! Ela mesma tecia a fazenda, ela mesma inventava as modas.
_ Dona Aranha - disse o Príncipe - quero que faça para esta ilustre dama o vestido mais bonito do mundo. Vou dar uma grande festa em sua honra e quero vê-la deslumbrar a corte.
Disse e retirou-se. Dona Aranha tomou a fita métrica e, ajudada por seis aranhinhas muito espertas, principiou a tomar as medidas. Depois teceu depressa, depressa, uma fazenda cor-de-rosa com estrelinhas douradas, a coisa mais linda que se possa imaginar. Teceu também peças de fitas e peças de renda e peças de entremeio - até carretéis de linha de seda ela fabricou.

(Cena dançada de medição pra lá e pra cá) .
levar fitas e fita e rendas para performance

_ Que beleza! - ia exclamando a menina, cada vez mais admirada dos prodígios da costureira. Conheço muitas aranhas em casa de vovó, mas todas só sabem fazer teias de pegar moscas; nenhuma é capaz de fazer nem um paninho de avental...

-É que tenho mil anos de idade - explicou Dona Aranha - e sou a costureira mais velha do mundo. Aprendi a fazer todas as coisas. Já trabalhei durante muito tempo no reino das fadas; fui eu quem fez o vestido de baile de Cinderela e quase todos os vestidos de casamento de quase todas as meninas que se casaram com príncipes encantados.

_ E para a Branca de Neve também costurou?

_ Como não? Pois foi justamente quando eu estava fazendo o véu da noiva de Branca que fiquei aleijada. A tesoura caiu-me sobre o pé esquerdo, rachando o osso aqui neste lugar. Fui tratada pelo Doutor Caramujo, que é um médico muito bom.

Sarei, embora ficasse manca o resto da vida.

-Acha que esse Doutor Caramujo é capaz de curar uma boneca que nasceu muda? - perguntou a menina.
- Cura, sim. Ele tem umas pílulas que curam todas as doenças, exceto quando o doente morre.
Enquanto conversavam, Dona Aranha ia trabalhando no vestido.
- Está pronto - disse ela, por fim. - Vamos prová-lo. Narizinho vestiu-se, indo ver-se ao espelho.
E estava mesmo linda. Linda, tão linda no seu vestido cor-de-rosa com estrelinhas de ouro, que até o espelho arregalou os olhos, de espanto.

Trazendo, em seguida, o seu cofre de jóias, Dona Aranha pôs na cabeça da menina um diadema de orvalho, e braceletes de rubis do mar nos braços, e anéis de brilhantes do mar nos dedos, e fivelas de esmeraldas do mar nos sapatos, e uma grande rosa do mar no peito.

Mais linda ainda ficou Narizinho, tão mais linda que o espelho arregalou um pouco mais os olhos, começando a abrir a boca.

_ Pronto? - perguntou a menina deslumbrada.

_ Espere - respondeu Dona Aranha Costureira. - Faltam os pós de borboleta.

E ordenou às suas seis filhinhas que trouxessem as caixas de pó de borboleta. Escolheu o mais conveniente, que era o famoso pó furta-todas-as-cores, de tanto brilho que parecia pó de céu-sem-nuvens misturado com pó de sol-que-acaba-de nascer. Polvilhada com ele a menina ficou tal qual um sonho dourado! Linda, tão linda, tão mais, mais, mais linda, que o espelho foi arregalando ainda mais os olhos, mais, mais, mais, até que - craque!... rachou de alto a baixo em seis fragmentos!

Em vez de ficar danada com aquilo, como Narizinho esperava, Dona Aranha pôs-se a dançar de alegria.

-Ora graças! - exclamou, num suspiro de alívio. Chegou afinal o dia da minha libertação.

Quando nasci, uma fada rabugenta que detestava minha pobre mãe, virou-me em aranha, condenando-me a viver de costuras a vida inteira. No mesmo instante, porém, uma fada boa surgiu, e me deu esse espelho com estas palavras: “No dia em que fizeres o vestido mais lindo do mundo, deixarás de ser aranha e serás o que quiseres”.

_ Que bom! - aplaudiu Narizinho. - E no que vai a senhora virar?
_ Não sei ainda - respondeu a aranha. - Tenho que consultar o Príncipe.
_ Sim, mas não vire em nada antes de destes retalhos um vestido para a Emília. A pobrezinha não pode comparecer ao baile assim, em fraldas de camisa como está.
-Agora é tarde, menina. O encantamento está quebrado; já não sou mais costureira. Mas minhas filhas poderão fazer o vestido da boneca. Não sairá grande coisa, porque não tem a minha prática, mas há de servir. Onde está a Senhora Emília?
Narizinho não sabia. Depois que furtou os óculos da velha e saiu correndo, ninguém mais vira a boneca.
Dona Aranha voltou-se para as seis aranhinhas.
-Minha filha - disse ela - o encanto está quebrado e logo estarei virada no que quiser. Vou, portanto, abandonar esta vida de costureira, deixando a vocês o meu lugar. O encantamento continua em vocês. Cada uma tem de conservar um pedaço do espelho e passar a vida costurando até que consiga um vestido que o faça rachar de admiração, como sucedeu ao espelho grande.
Nisto o Príncipe apareceu. Narizinho contou-lhe toda a história, inclusive a atrapalhação da aranha quanto à escolha do que havia de ser.

O Príncipe observou que seu reino estava com falta de sereias, sendo muito do seu agrado que ela virasse sereia.

_ Nunca! - protestou Narizinho, que era de muito bons sentimentos. - Sereias são criaturas malvadas, cujo maior prazer é afundar navios. Antes vire princesa.

Houve grande discussão, sem que nada fosse decidido. Por fim a aranha resolveu não virar em coisa nenhuma.

-Acho melhor ficar no que sou. Assim, manca duma perna, se viro princesa ficarei sendo a Princesa Manca; se virar sereia, ficarei a Sereia Manca - e todos caçoarão de mim. Além do mais, como já sou aranha há mil anos, estou acostumadíssima.

E continuou aranha.

Por que o mar tanto chora.
Cinderela Sergipana.(Silvio Romero 1883).

Onde morava uma Rainha.
Uma rainha que estava casada há muito tempo e ainda não tinha um filho.”Um Deus , permita que eu engravide, nem que seja para dar a luz à uma serpente”, ela rezava noite e dia até que por fim Deus concedeu sua prece e lhe concedeu uma filha , que nasceu com uma cobra enrolada no pescoço.
A princesinha recebeu o nome de Maria e, assim que aprendeu a falar, chamou a cobra de d.Labismina .As duas eram grandes amigas. Passeavam muito pela praia , nadavam juntas, brincavam.

Às vezes Maria deixava D.labismina mergulhava sozinha, mas se ela demorava a voltar , punha-se a chorar em grande aflição .
Um dia a cobra entrou no mar e desapareceu. Antes porém, disse a princesa que se estivesse em perigo , bastava chamá-la.

Anos depois a rainha de um país vizinho adoeceu. Quando estava preste a morrer , tirou um anel do dedo e o entregou ao rei , seu marido dizendo:
- “se você se casar de novo escolha uma princesa em cujo dedo caiba este anel direitinho.”

Tão logo ficou viúvo, o rei, que era um homem velho, feio e rabugento, resolveu procurar uma noiva .
Mandou o anel para todas as princesas do mundo experimentarem, e ele não coube em nenhum dedo.
Então descobriu que uma princesa ainda não experimentara :Maria foi visita- la em seu palácio e sem a menor dificuldade colocou-lhe o anel no dedo. Maria não queria se casar com aquele homem horroroso, , mas seus pais exultaram, pois era um a homem imensamente rico.
O casamento foi marcado pra breve .A pobre noiva desesperada , chorou dias a fio, até que se lembrou do que Dona Labismina lhe dissera ao se despedir .Foi então para a praia , chamou sua fiel amiga e lhe contou o que estava acontecendo.”Não se preocupe”, a cobra falou.”Diga ao rei que só se casará com ele se ele lhe trouxer um vestido da cor da mata com todas as flores.”
Maria fez exatamente como Dona labismina lhe recomendou.
O velho ficou muito aborrecido, mas, como estava encantado com a beleza da noiva , prometeu que lhe daria o tal vestido. Demorou bastante tempo, porém acabou cumprindo sua palavra.
“E agora, o que vou fazer?”, a princesa perguntou à cobra .Diga-lhe que só se casará se ele lhe der um vestido da cor do mar com todos os peixes.”, respondeu a boa amiga”.
O rei se aborreceu ainda mais, porém fez de tudo para atender a exigência da noiva .E lá se foi Maria mais uma vez pedir socorro à Dona labismina .”Diga-lhe que só se casará se ele lhe der um vestido da cor do céu com todas as estrelas.”, recomendou a cobra.
Ao tomar conhecimento desse novo capricho, o rei ficou terrivelmente irritado, mas, como das outras vezes , prometeu satisfazê-lo e não deixou de cumprir a promessa.
Desesperada, a princesa correu para a praia , onde sua fiel amiga já a esperava em um barco a postos.
“Fuja depressa!”, disse-lhe Dona labismina.” Este barco a levará para um reino distante , onde você se casará com o filho do rei. No dia de seu casamento , vá até a praia e me chame três vezes , para que meu encantamento se rompa e eu também seja princesa.”

Maria partiu e, conforme a cobra informara foi ter a um reino distante. Sem recursos para se manter , dirigiu-se ao palácio e pediu emprego. Encarregaram-na de cuidar do galinheiro.

Pouco depois se realizou uma festa anual na cidade que durava três dias. A família real e os fidalgos saiam para festejar com o povo. Maria recebeu ordens de ficar com as galinhas, porém assim que se viu sozinha pós seu vestido cor da mata com todas as flores e pediu a dona labismina uma carruagem e também foi à festa.

Todos que a viram se maravilharam com sua beleza , principalmente o filho do rei , mas ninguém a reconheceu.

Principalmente o filho do rei, mas ninguém a reconheceu .Maria se divertiu algumas horas e voltou para o palácio .Estava em seu canto toda esfarrapada quando o príncipe chegou e disse:vc viu aquela maravilha? , o rapaz perguntou à mãe antes de descer da carruagem, .”Não acha que se parece com a moça que cuida de nosso galinheiro?””A rainha franziu a testa surpresa “Imagine, a moça que trabalha em nosso galinheiro, vive maltrapilha e suja.. ”O príncipe deixou os pais falarem e foi falar com Maria”:

-Hoje vi lá na festa uma princesa muito parecida com você...”corando até a alma a princesinha murmurou:” Por favor alteza, não zombe de mim!”•No dia seguinte, depois que todos saíram, Maria pôs sua vestida cor do mar com todos os peixes e foi se divertir um pouco.•Perdidamente apaixonado o príncipe perguntou a uns e outro quem era aquela beleza, mas ninguém soube lhe dizer.•No terceiro dia da festa Maria usou seu vestido da cor do céu com todas as estrelas, e quando ia se retirar, recebeu do príncipe uma jóia.•Encerrados os festejos , o filho do rei caiu numa tristeza de dar pena. passava o tempo todo na cama, suspirando, e se recusava a comer. Sem saber mais o que fazer , a rainha ordenou à moça do galinheiro que preparasse uma canja suculenta para o filho debilitado. Maria obedeceu sem pestanejar e, antes de mandar a tigela de canja para o príncipe, colocou dentro o presente que ele lhe dera. Ao tomar a primeira colherada o rapaz encontrou a jóia e saiu da cama gritando estou curado, minha amada só pode ser a moça do galinheiro.•A rainha chamou Maria, que se apresentou usando o vestido da cor do céu , e naquele mesmo dia se casou com o príncipe.•Zonza de felicidade, a jovem se esqueceu de ir á praia e chamar por três vezes por sua fiel amiga assim , dona Labismina nunca se libertou de seus encantamentos , e é por isso que o mar tanto chora.••E se esqueceu de sua boa , amiga Dona Labismina.•E é porisso que o mar tanto chora...••”.

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